IBIÁ

Santa Casa de Ibiá apura casos de mulheres que engravidaram após cirurgia de laqueadura de trompas

De 27 pacientes que fizeram o procedimento pelo Sistema Único de Saúde com os mesmos médicos, três ficaram grávidas.

09/11/2019 12h31
Por: Expresso Notícia
Fonte: G1/ MG2
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

A Santa Casa de Misericórdia de Ibiá vai apurar como foi feita uma série de laqueaduras de trompas em pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). De 27 mulheres que passaram por cirurgias com os mesmos médicos, três já engravidaram após o procedimento. O MG2 procurou o Conselho Regional de Medicina, a Prefeitura e os profissionais envolvidos.

O documento que a cabeleireira Nagisla Beatriz Alves tem foi assinado por ela assinou pouco antes da cirurgia. O texto é claro quando informa que o método pode falhar, mas para quem se submeteu a uma laqueadura foi difícil acreditar no resultado de outro exame realizado cinco meses depois da operação: ela estava grávida novamente.

Foi o próprio hospital que sugeriu que ela fizesse o teste. “Quando eu recebi a ligação fui informada que teria que fazer o exame. Fiz com a esperança que o resultado fosse negativo, mas quando peguei o exame, já fui encaminhada para falar com o cirurgião. Ele ficou surpreso com a notícia”, conta.

Uma semana depois ela começou a sentir dores. Ainda segundo Nagisla, não demorou para os médicos constatarem o aborto espontâneo. A cabeleireira está angustiada para saber o que de fato ocorreu. “Me pediram para fazer um exame que comprovaria se a minha laqueadura tá falhada, eu quero entender o que houve aqui dentro. Porque no dia a cirurgia [o médico] me mostrou o pedaço, que segundo ele, era a trompa. E me mostrou só uma”, disse.

“Ele [o médico] disse que o certo agora é que eu faça a cirurgia para não ter mais filho. Fiquei indignado”, afirma o marido de Nagisla, o pedreiro Jeová Vicente de Souza.

Poderia ser somente um caso isolado, mas segundo a família a situação se repetiu na cidade pelo menos três vezes nos últimos meses. A caseira Silvânia Aparecida dos Reis fez a laqueadura no mesmo dia de Nagisla e também engravidou. Ela está com dois meses de gestação e muito preocupada.

Silvânia conta o procedimento foi recomendado porque teve complicações na última gravidez antes da cirurgia. “O medo é que da outra vez eu quase morri, então eu corro risco e a criança também. Segundo eles [os médicos] cortaram as trompas e isso faz falta para gerar a criança. Então estou com medo de como essa criança vai nascer, se será saudável, se eu vou aguentar os nove meses”, disse a caseira preocupada.

Diante das denúncias, a Santa Casa de Misericórdia de Ibiá abriu uma apuração interna. O hospital suspendeu os médicos nas cirurgias de laqueadura.

Segundo o diretor clínico da unidade, Valter Mucio Costa, eles foram contratados por meio do hospital, mas a direção não foi consultada sobre os profissionais.

Ele afirma ainda que os dos médicos não são especialistas na área. “São cirurgiões gerais e eles se propuseram a fazer essas laqueaduras. Não posso falar por eles, mas eu só faço aquilo que tenho competência. Sou cirurgião há 36 anos e se me pedirem para fazer uma cirurgia cardíaca eu não vou me propor a fazer. Não é minha área”, explica.

O hospital confirma que de 2018 a 2019 os médicos realizaram 27 laqueaduras e vasectomias em uma parceria com a Prefeitura. Todas as pacientes estão sendo chamadas para realizarem exames de triagem, entretanto vão precisar fazer um procedimento mais específico para saber se as trompas foram ou não ligadas.

O detalhe: esse exame na região custa em média R$ 460. A dúvida que fica é quem vai pagar por esse exame. “Tem que ter alguém para pagar essa conta, seja o hospital ou a Secretaria de Saúde. Eu acho que isso é um direito das pessoas”, disse Valter.

O Conselho Regional de Medicina (CRM), em Belo Horizonte, informou que desde que um médico devidamente registrado no CRM, não tem impedimento ético para que o profissional que não seja ginecologista/obstetra, pratique a laqueadura.

Enquanto nada se resolve, o sentimento entre as mulheres que voltaram a engravidar é de revolta.

“Você procura o médico porque já tem medo do que pode acontecer com a criança e até mesmo com você. Você confia neles e isso acontece. A gente fica revoltada”, enfatiza Silvânia.

O outro lado

A reportagem procurou a Prefeitura de Ibiá que informou que o município apenas repassou os recursos do SUS ao hospital. Ninguém na Secretaria de Saúde quis gravar entrevista.

A Santa Casa informou que ofereceu assistência às mulheres que engravidaram, como acompanhamento, exames médicos e parto.

Os médicos que fizeram as laqueaduras são de Belo Horizonte. Por meio de nota, eles informaram que as duas pacientes citadas na reportagem estavam cientes de que o método não é seguro 100% e assinaram um termo.

O texto diz ainda que a equipe lamenta o ocorrido, por não se tratar de um resultado esperado pelas pacientes e por eles e que, desde o início, se colocaram à disposição das pacientes e familiares em forma de apoio e esclarecimentos.

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